jewellery talks - galeria reverso

DO YOU SPEAK JEWELLERY? *

Talk Show – Conversa informal sobre joalharia contemporânea e apresentação do programa de exposições de 2018, comemorativo dos 20 anos da Galeria Reverso.

participantes:
Marina Elenskaya – co-fundadora da revista de joalharia Current Obsession.
Olga Noronha – joalheira.
Pedro Sequeira – artista plástico e joalheiro.
Manuel Vilhena – joalheiro.

moderadora:
Marta Costa Reis – Galeria Reverso.

20 de Janeiro, das 16:00h às 18:00h.
Press Release | Bios



Tempos atrás uma amiga, que é também joalheira, perguntou-me se eu achava que a nossa arte ia continuar a existir. A pergunta supreendeu-me pois nunca tinha realmente equacionado as coisas nesses termos. Como “continuar a existir”? Claro que sim! Nunca me passara pela cabeça que as artes desaparecessem. Para além do mais, sabemos que a joalharia é quase inerente à espécie humana.

Mas a interrogação permaneceu… poderá realmente “isto” desaparecer? E o que é “isto”? A começar pela dificuldade em acertar com um nome : joalharia artística ou art jewellery – mas também joalharia contemporânea, joalharia de autor, studio jewellery, etc.– para não falar das confusões com joalharia de artistas, são muitas as hesitações e opções que não ajudam à afirmação de uma autonomia artística e estética. Mas “isto “ existe ! Mesmo que não saiba muito bem nomeá-lo está aí e – pensava eu de forma inquestionável – está para ficar.

O que me intrigou e despertou foi esta ideia, quase uma angústia, de que o sector da joalharia artística poderia estar em perigo de desaparecer, quando eu o vejo como pujante, vibrante e cheio de vida… (estarei alheada da realidade?) Há uma imensidão de novos artistas, escolas, workshops, feiras e exposições que levam a que já não seja possível conhecer o trabalho de toda a gente, saber de todas as exposições, acompanhar todas as novidades… sinais para mim de que passámos para uma nova fase de maturidade, com todas as novas oportunidades e problemas que daí advém.

Por outro lado, ainda recentemente esteve em debate na AJF – Art Jewellery Forum – uma tema que já ouvira também enunciado com preocupação por outra artista, que é o facto de um conjunto significativo de galeristas de joalharia contemporânea estar a atingir a idade de reforma, não se sabendo se se vão manter as galerias e em que condições e outros pura e simplesmente fecharam.

Pode este trabalho sobreviver sem galerias? E mesmo podendo, queremos que isso aconteça? Podemos imaginar um futuro em grande parte virtual, de compras online, de exposições organizadas pelos próprios artistas em feiras ou locais ad hoc? Vão emergir curadores independentes ou “agentes” de artistas que operam sem espaço fisico definido, sem galeria? E as galerias, quantas podem sobreviver sem concessões à “joalharia comercial” ou sem subsidios?

Li há tempos uma biografia de Peggy Gugenheim, comprada em Paris, na altura em que lá fui ver a exposição “Medusa: Bijoux et Tabous”, que penso terá de ser vista como um marco na problematização, divulgação e – há que dizê-lo ainda? – legitimação da joalharia artística. O livro – que li no avião de regresso – fez-me ver alguns paralelismos entre o momento que a joalharia agora vive e o que ali se descreve no emergir artístico da idade moderna. A pergunta: “isto é arte?” ecoa na nossa prática quotidiana, acompanhada da outra: “isto é joalharia?” Há um sentimento de vanguarda no mundo da joalharia que julgo ser dificil encontrar hoje em dia noutras áreas. Não estamos já na primeira geração mas nos seus filhos ou netos e tudo é ainda muito novo e excitante mas também bastante incerto.

Os artistas querem saber como dedicar-se plenamente à sua arte, sem necessitar de outros trabalhos; os galeristas querem saber como cativar novos públicos, ainda que cientes de que talvez sejamos sempre um pequeno nicho; os pensadores, professores e curadores têm de definir os contornos teóricos do que estamos a fazer; as escolas oscilam entre o ensino artístico e a preocupação de dar ferramentas de empregabilidade aos alunos e os coleccionadores angustiam-se perante a possibilidade de estarem cegos pela sua paixão…todo um mundo se organiza em torno da jóia.

E a jóia tem de dar respostas… num mundo em constante expansão em que os limites se esboroam… fotografia, instalação, video, performance, escultura, escarificação, tatuagem, land art, arte urbana, design, craft, tecnologia 3D, realidade aumentada…a joalharia artística corre por todos esses mundo. Mas, para além da prática individual, o que fica quando regressamos à bancada? Onde estamos, e claro, para onde vamos?

Marta Costa Reis, 2018
p/ Galeria Reverso

* Manuel Vilhena in “do you speak jewellery”, 1998